Lançamento do livro Vale do Jaguaribe: Janelas para o passado

26 de junho de 2015 - 13:42

Na próxima terça-feira (30) será feito o lançamento do livro Vale do Jaguaribe: Janelas para o passado, organizado pelos professores José Olivenor Souza Chaves, Gláubia Cristiane Arruda Silva e Maria Lucélia de Andrade. O lançamento será realizado no auditório da FAFIDAM, às 19h. Segue abaixo a apresentação do livro, feita pelo professor José Olivenor.

Originário da produção monográfica desenvolvida no curso de História da Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos – FAFIDAM-UECE[1], o presente livro, composto por doze capítulos, tem por objetivo favorecer professores e alunos da rede de Ensino Fundamental e Médio, com aquisição de novos conteúdos historiográficos, voltados para a chamada história local. Para além destes dois segmentos, o livro destina-se, de maneira geral, ao público interessado em conhecer e melhor compreender algumas das tramas e enredos que marcaram o passado da região hoje denominada Vale do Jaguaribe.

Desde a sua idealização, o livro guarda, em cada página, o desejo de romper com modelos tradicionais de se conceber e escriturar a História. Sendo assim, os capítulos, aqui reunidos, não se prestam a fornecer explicações cabais da origem e destino de nenhuma das sociedades que compõem a região acima referida, pretexto que, de alguma maneira, alimenta a escrita dos chamados memorialistas comprometidos com a preservação das chamadas histórias de origem, aquelas que, normalmente, tendem a ir ao encontro do “fundador” do lugar ou tenta preservar a memória dos principais ícones políticos que fizeram parte da história da cidade/município.

Diferentemente de tais abordagens, em cada um dos capítulos que darão sequência a esta apresentação, as temáticas abordadas se acham presididas por modelos de narrativas inspirados, sobretudo, na pluralidade e na fluidez de significados que cada autor foi capaz de inventariar e problematizar, a partir das fontes empíricas por ele pesquisadas. Portanto, sem ter a pretensão de propor grandes sínteses, cada um dos autores foi, por assim dizer, chamado a vasculhar os entulhos do passado, a palmilhar terrenos planos, a se embrenhar pelas margens, pelos caminhos descontínuos e pelos chãos de estrias. Nesta caminhada por tempos e espaços diversos, os jovens historiadores orientaram seus olhares na busca dos restos, das sobras, enfim, de quaisquer fragmentos que, por alguma razão, tenham sobrevivido do passado, de modo a lhes permitir estabelecer níveis de compreensão sobre esse mesmo passado. Do movimento de suas ideias, se fez emergir, portanto, vários discursos historiográficos marcados pela leitura interpretativa das fontes empíricas, sob a constante mediação dos referentes historiográficos e teórico-metodológicos.

Em razão de vivemos um tempo profundamente marcado pela forte aceleração da vida cotidiana, somada a um profundo cenário de incertezas, nenhum dos autores buscou presidir a escrita da História com e a partir da chancela da verdade absoluta. Na ampla esteira que abriga novos objetos, novas abordagens e novos problemas, para aqui lembrarmos a tríade sugerida por Jacques Le Goff,[2] os historiadores têm voltado suas reflexões para novos temas, novos enredos que, cada vez mais, alimenta novas possibilidades de problematização e interpretação do passado em toda a sua pluralidade de sentidos.

Inscrita no curso dessa nova estética historiográfica, a presente coletânea traz o passado recortado a partir de diversas temáticas. Em cada uma das abordagens, despidos de qualquer postura de indiferença e neutralidade, sem buscarem um método seguro, objetivo, empiricamente controlável por documentos e técnicas, os autores foram impelidos a espreitar a vida cotidiana a partir de seus mistérios, de sua simbologia, das práticas culturais, cujos contornos escapam a qualquer esquema de abordagem racional-científica.

Libertos, pois, da premissa de alcançar a totalidade do conhecimento histórico, representada, em boa medida, pela permanência dos chamados contextos históricos, cada autor buscou enxergar a pluralidade das relações e fazeres cotidianos, marcados, também, e sobremaneira, pela diversidade de signos e de elementos que, muitas vezes, representam rupturas, descontinuidades.

Na prática da pesquisa histórica, cada autor escolheu sua própria temática de estudo, selecionando e interrogando as várias tipologias de fontes pesquisadas, ao mesmo tempo em que buscavam construir seus referentes teórico-metodológicos, objetivando, com isso, estabelecer, dentro e a partir de uma narrativa historiográfica, níveis de compreensão acerca dos recortes empíricos por eles analisados. Em muitas das narrativas, percebe-se o esforço dos autores para valorizar tudo o que, no empirismo, se apresentava como diferente, confuso, marginal ao que se imaginava que fosse, de fato, a realidade. Sendo assim, todos os elementos que fugiam ao que era, supostamente, presumível, tornava-se essencial para as reflexões no processo de construção do discurso historiográfico, pois o que se apresenta como diferente, ou representa o caos, são indícios que nos servem como ponto de partida para a construção do real e não como apropriação do real. Dito isto, fica claro que nenhum contexto histórico pode explicar todas as práticas de um indivíduo, sem, no entanto, levar em consideração as singularidades que marcam seu viver cotidiano (ALBUQUERQUE Jr., 2007).

A partir de documentos e vestígios do passado, e alimentados por sua imaginação histórica, os autores buscaram esquadrinhar as tramas históricas, estabelecendo a interligação entre a estrutura e o que é simbolicamente criado pelo discurso e pela ação efetiva do ser humano, pois nenhum acontecimento, nenhum evento representa um dado transparente que, por inteiro, se oferece ao historiador. Como nos lembra Durval Muniz de Albuquerque Jr. (2007, p.58), em virtude de não existir uma realidade objetiva do fato, do signo, qualquer acontecimento histórico passa a ser agenciado pelo seu caráter relacional, contextual e plural, pois estes são produtos de invenção social e linguística.

Feitas estas breves considerações, passarei, a partir de agora, a apresentar uma sinopse de cada um dos doze capítulos, respeitando a maneira como os mesmos se acham dispostos dentro da estrutura do livro.

Ana Maria Félix da Silva, em A Demarcação e a Colonização – O Sítio Igreja Paróquia de N. S. do Rosário das Russas (1707-1708), analisa a colonização da Sétima Data de Sesmaria do Jaguaribe, a partir da demarcação das terras de Sesmaria principiada no início do século XVIII. O objetivo da autora é compreender a complexidade dos elementos que envolveram a colonização da Sétima Data, ou seja, a expropriação das terras indígenas, o avanço da pecuária sobre as ribeiras do Jaguaribe e a instituição da Paróquia de N. S. do Rosário das Russas.

Luciana Meire Gomes Reges, em seu capítulo Esquadrinhando a Vila de Limoeiro nos inventários post-mortem (1875-1880), buscou estabelecer alguns níveis de compreensão a respeito da vila de Limoeiro entre anos de 1875 a 1880. Como fonte de pesquisa, a autora utilizou inventários post-mortem do período por ela estudado, buscando privilegiar vários aspectos que compuseram a estrutura social da vila de Limoeiro.

Francisco Edinou Bezerra Maia, em A cidade de São Bernardo das Russas e a Instituição do Casamento Civil (1889 A 1904), através da leitura e da compilação do primeiro Livro de Registros Civis de Casamentos de Russas, analisou, quantitativamente, os dados fornecidos pela referida fonte de pesquisa, buscando, ao mesmo tempo, estabelecer níveis de compreensão acerca da composição da população russana e suas redes de sociabilidade no período de transição do século XIX para o século XX.

José Olivenor Souza Chaves e demais autores, no capítulo Dos Escrínios do Passado a vila/cidade de Limoeiro em enredos de História (1879-1930), com base nas Atas da Câmara de Vereadores de Limoeiro de finais do século XIX e inícios da centúria passada, buscou, no curso da investigação, assentar a escrita da História dentro de uma estética narrativa que permitisse aos autores pensar a vila/cidade de Limoeiro a partir dos enredos cotidianos, sumariamente carregados de significados sócio, políticos e culturais.

Gláubia Cristiane Arruda Silva, em Versos e Reversos do Serviço de Malária do Nordeste, objetiva perceber as relações envolvendo o Serviço de Malária do Nordeste (SMNE) e a população violentada pela epidemia de malária, mazela que acometeu a população do Vale do Jaguaribe no período de 1937 a 1942.

Maria Lucélia de Andrade assina o capítulo “Simples na Malícia e Prudentes nas Boas Obras”: A Pia União das Filhas de Maria em Limoeiro – Ce (1915-1945), no qual analisou a organização, o funcionamento e a influência que a Irmandade das Filhas de Maria teve na cidade de Limoeiro no período destacado no título do capítulo.

Cintya Chaves, em “De Deus aos Homens”: o movimento de ação católica no município de Limoeiro do Norte (1940-1954), teve por propósito analisar as implicações que o movimento da Ação Católica teve na Diocese de Limoeiro do Norte, sob a atuação Dom Aureliano Matos. Como fonte de pesquisa, a referida autora utilizou tanto a documentação do acervo do Arquivo Episcopal de Limoeiro do Norte, como entrevistas orais, além, ainda, de livros de memorialistas locais.

Sandra Alves Santiago, em Tramas da Paixão: raptos e fugas amorosas em Quixeré (1920-1950), aborda, como o próprio título anuncia, eventos de rapto e fuga num contexto de regras, limites e normas estabelecidas, sobretudo pela Igreja Católica.

Francisca Claudênia de Freitas, com seu estudo – Sob Constante Vigilância: A família assentada do Perímetro Irrigado de Morada Nova, busca estabelecer alguns níveis de compreensão acerca do processo de assentamento das famílias de colonos do Perímetro Irrigado de Morada Nova (PIMN), tomando como referência empírica as fichas de controle das famílias assentadas no referido perímetro irrigado.

Maria Zenilda Mendes de Aguiar, no capítulo A Edilidade e a Saúde Pública em Morada Nova (1970-1976), elegeu, como principal objetivo, a análise da saúde pública no município de Morada Nova durante o período delimitado pela pesquisa. Para isto, tomou como principal fonte de pesquisa as Atas da Câmara Municipal, a partir das quais fez um inventário de uma série de indícios relativos aos problemas sanitários, à falta de infra-estrutura hospitalar e ao processo de atuação da Fundação SESP.

Rafaela Moreira de Lima, com Do Caixão Preto de Outrora aos Planos de Assistência Funerária: os novos sentidos do morrer e do velar a morte em Limoeiro do Norte, procura interpretar os diversos significados atribuídos às práticas relacionadas à morte e, como consequência, as mudanças que, historicamente, têm se processado nos rituais de passagem da vida para a morte.

Marcelo Lucas Araújo, em Vem-Vem, Beija-Flor… o repente e a arte do improviso na cidade de Russas, discute a importância do repente dentro do processo de sociabilidade sertaneja e como este construiu/constrói as mais variadas representações do homem e da vida no sertão.

Para concluir esta breve apresentação, gostaria de ressaltar, ainda, que o fôlego intelectual de produzir o presente livro não partiu tão somente, por assim dizer, dos pulmões de minha imaginação histórica, pois o mesmo resulta das ideias e disposição de jovens pesquisadores que, pelos caminhos da pesquisa, se permitiram aprender um pouco mais de História, enquanto dela se faziam escritores.


[1] Apenas três capítulos não dizem respeito aos estudos monográficos. São eles: o capítulo Dos Escrínios do Passado a vila/cidade de Limoeiro em enredos de História (1879-1930), produzido a partir de minhas pesquisas de Iniciação Científica, desenvolvidas junto a um grupo de alunos/bolsistas (IC-UECE, IC-FUNCAP e PIBIC-CNPq), com os quais assino o referido capítulo; o capítulo Versos e Reversos do Serviço de Malária do Nordeste, assinado pela professora Gláubia Cristiane Arruda Silva; e, por fim, o capítulo “Simples na Malícia e Prudentes nas Boas Obras”: A Pia União das Filhas de Maria em Limoeiro – CE (1915-1945), de autoria da professora Lucélia de Sousa Andrade. Ambas são ex-alunas do curso de História da FAFIDAM-UECE. 

[2] Le Goff, Jacques & Nora, Pierre. História: novos problemas. Tradução de Theo Santiago. 3ª edição. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora, 1988; Le Goff, Jacques & Nora, Pierre. História: novas abordagens. Tradução de Henrique Mesquita. 3ª edição. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora, 1988; Le Goff, Jacques & Nora, Pierre. História: novos objetos. 4 ª edição. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora, 1995.