Aula de campo integra estudantes de dois campi da Uece em percurso pelo Nordeste
13 de outubro de 2026 - 10:52
Quarenta estudantes de graduação e pós-graduação da Universidade Estadual do Ceará (Uece), vinculados aos campi Itaperi, em Fortaleza, e Canindé, participaram, entre os dias 28 de setembro e 2 de outubro de 2026, de uma aula de campo interdisciplinar que percorreu territórios do Ceará, do Rio Grande do Norte e de Pernambuco. A iniciativa articulou conteúdos de Geografia Agrária, Geografia do Turismo e Ensino de Geografia, em uma experiência de formação acadêmica, científica e cultural.
A atividade foi coordenada pelas professoras Camila Dutra e Angela Falcão, dos cursos de Geografia do campus Itaperi, e pelo professor Otávio Barra, do curso de Pedagogia do campus de Canindé. Também participaram mestrandos e doutorandos do Programa de Pós-Graduação em Geografia (PropGeo/Uece), vinculados à disciplina Tópicos Avançados em Métodos e Tópicos de Pesquisa.
A proposta teve como objetivo compreender as dinâmicas territoriais, ambientais e socioculturais presentes ao longo do percurso entre Ceará e Pernambuco, articulando os referenciais teóricos da Geografia às observações empíricas realizadas em campo, fortalecendo a formação acadêmica, científica e pedagógica dos estudantes e ampliando sua capacidade de interpretar criticamente as relações entre sociedade, natureza e território.
Do território agrário às transformações do espaço
Em Ceará-Mirim, no Rio Grande do Norte, o grupo visitou o Centro de Formação e Treinamento Patativa do Assaré e o Acampamento Dom Tomaz Balduíno, espaços ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). As atividades abordaram temas como Reforma Agrária, organização dos movimentos sociais do campo, relações de trabalho e modos de vida, permitindo observar como essas dinâmicas participam da construção e da transformação dos territórios.
A programação contou com a contribuição de Rosa Negra, doutora em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP) e militante do MST no Rio Grande do Norte, que acompanhou as visitas e compartilhou conhecimentos sobre as experiências de organização social e luta pela terra.
Recife como espaço de leitura física-geográfica
Na capital pernambucana, os estudantes analisaram aspectos físicos e urbanos, como geologia, geomorfologia, dinâmica climática, ocupação do solo, periferização e enchentes. A abordagem permitiu discutir como as características naturais se relacionam com a urbanização, a infraestrutura e as desigualdades socioespaciais na produção de situações de risco e vulnerabilidade.
O percurso incluiu ainda a Ilha de Deus, comunidade marcada pela mobilização de seus moradores, especialmente das mulheres, o Marco Zero e o Museu do Trem do Recife. As visitas ampliaram as discussões sobre resistência social, memória, cultura, patrimônio, trabalho e identidade.
As atividades em Pernambuco contaram com a colaboração do professor Fredson Pereira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e de seus orientandos Renan Guerra e Anthony Mendonça, fortalecendo o intercâmbio entre pesquisadores e estudantes das instituições.
Turismo, litoral e transformações da paisagem
Nos municípios pernambucanos de Ipojuca e Cabo de Santo Agostinho, a aula de campo abordou as transformações da zona costeira associadas ao turismo, à expansão urbana e às atividades econômicas. Com a colaboração do geógrafo Walewsky Adriano, os estudantes observaram diferentes formas de ocupação e uso do litoral.
Em Porto de Galinhas, as discussões envolveram a expansão turística, a valorização imobiliária, as mudanças na paisagem e as condições de acesso e uso das praias. O grupo também estudou a localização do Complexo Industrial Portuário de Suape, situado entre Ipojuca e Cabo de Santo Agostinho, relacionando as atividades portuárias e industriais à circulação de mercadorias, à urbanização e aos impactos socioambientais.
As observações possibilitaram refletir sobre como diferentes atividades econômicas se sobrepõem nos territórios litorâneos, produzindo impactos e transformações na paisagem costeira.
De acordo com as coordenadoras, a experiência também trouxe para o debate questões relacionadas à especulação e valorização imobiliária, à transformação de áreas costeiras e às condições de acesso e uso das praias, considerando que a intensificação do turismo e da ocupação urbana pode produzir novas formas de apropriação e diferenciação do espaço. A leitura do litoral, portanto, ultrapassou a perspectiva do destino turístico e incorporou as relações entre direito de acesso, usos públicos e privados, interesses econômicos e produção da paisagem.
Por fim, para as coordenadoras da atividade, a integração entre estudantes de diferentes cursos (graduação e pós-graduação) e campi reafirmou que a formação acadêmica não se limita aos espaços convencionais da universidade. Para elas, mais que um deslocamento, a aula de campo é um espaço democrático de investigação, diálogo, descoberta e construção de conhecimento para todos.








