Linha 03 – Estudos Críticos da Linguagem

PROJETOS DE PESQUISA EM ANDAMENTO

 

Projeto 1: Viva a Palavra: cartografias de gramáticas culturais juvenis em territórios de violência.

Coordenadora: Profa. Dra. Claudiana Nogueira de Alencar

Descrição: Este projeto de pesquisa pretende cartografar os fluxos e os processos debconstrução coletiva do Programa Viva a Palavra, uma proposta de intervenção coconstruída por jovens de coletivos culturais e de movimentos populares da Serrinha, bairro periférico de Fortaleza-CE, e por pesquisadoras-militantes da Universidade Estadual do Ceará (UECE). O referido programa pretende atuar na prevenção da violência e na promoção dos direitos das juventudes, focalizando suas potencialidades em práticas culturais e em letramentos de reexistência, na luta contra o extermínio da juventude pobre e negra da periferia de Fortaleza. Nessa proposta de pesquisa-intervenção, são articulados os conceitos de “palavra mundo”, de Paulo Freire, e a concepção de linguagem como forma de vida, de Wittgenstein, para sugerir um “desenho metodológico” para a pragmática cultural, proposta de pesquisa linguística que procura “atravessar a rua” que separa a academia das práticas e dos saberes culturais e populares. As vivências nos círculos de cultura da comunidade, baseados no método de educação popular de Paulo Freire, possibilitarão, para além do “desenho metodológico”, uma reflexão sobre uma perspectiva de pesquisa linguística interventora, que considere o caráter terapêutico e crítico da linguagem na construção de uma práxis dialógica, acadêmica e popular de enfrentamento a questões nodais do nosso tempo. Articulando a educação popular aos modos rizomáticos e simétricos de fazer pesquisa, a pragmática cultural pretende construir pontes entre a pragmática e a antropologia linguística, problematizando os conceitos hegemônicos de significado, de linguagem e de cultura, para vivenciar outras formas de vida em circuitos de linguagens, de cuidados e de paz, gramáticas culturais de esperança e de resistência às várias formas de violência, incluindo a violência linguística.

Palavras-chave: Pragmática. Educação popular. Juventudes. Cultura. Violência.

 

Projeto 2: Dialogismo, carnavalização e discurso em perspectiva bakhtiniana.

Coordenador: Prof. Dr. João Batista Costa Gonçalves

Descrição: A teoria do dialogismo proposta pelo círculo bakhtiniano se apoia na ideia de que a linguagem é essencial e constitutivamente dialógica, o que significa dizer que toda palavra é constituída por duas faces, uma vez que tanto procede de alguém (locutor) como se dirige para alguém (interlocutor); instaurando, por isso mesmo, o produto da interação entre os interlocutores (BAKHTIN/VOLOSHÍNOV, 1995). Amparado nesse preceito teórico-conceitual, Bakhtin entende a carnavalização como a transposição da lógica invertida do carnaval, de pôr o mundo às avessas, para a linguagem da literatura e das artes em geral (BAKHTIN, 1981). Marcados por essa cosmovisão carnavalesca, diversos discursos subvertem hierarquicamente as relações sociais, por meio de certos procedimentos discursivos, textuais e linguísticos – tais como o riso, a ironia, a paródia, o uso de oxímoros, etc. – , os quais, por seu turno, são geradores de determinados efeitos de sentido. Diante disso, este projeto de pesquisa, fundamentado na perspectiva dialógica da linguagem, ocupa-se em analisar diferentes discursos que circulam socialmente – como o discurso político, o religioso, o midiático, o filosófico e o literário, dentre outros -, a partir da teoria da carnavalização proposta pelo pensador russo citado (BAKHTIN, 1981; 1993; 2002).

Palavras-chave: Dialogismo. Discurso. Carnavalização. Mikhail Bakhtin.

 

Projeto 3: Mídia, política e luta social na história recente do Brasil: linguagem, violência e hegemonia.

Coordenador: Prof. Dr. Raimundo Ruberval Ferreira

Descrição: Em 2015 e em 2016, diversos protestos, que mobilizaram predominantemente setores da classe média do Brasil, tomaram o país, baseando-se em dois temas: a corrupção e a exigência de impeachment da então Presidenta Dilma Rousseff. Esses protestos foram marcados, principalmente, por um violento discurso antipetista, cujas motivações centrais dizem respeito à forma como a grande mídia brasileira vem abordando a questão da corrupção nos últimos anos – vinculando o referido problema a uma administração patrimonialista do poder público, conforme nos lembra Souza (2016) – e às tensões de classe no Brasil. Nesse contexto, é necessário considerar o fato de que o mundo social é constituído por diversos campos de forças, no interior dos quais acontecem disputas pelo seu domínio, conforme assevera Bourdieu (2008). Ainda no tocante ao tema, outro aspecto que merece destaque é o de que tais lutas são formas de inscrições sociodiscursivas que fazem parte de lutas sociais e políticas mais amplas, para o estabelecimento ou para a manutenção de certas hegemonias, conforme explica Laclau (1985). Em vista desse quadro, este projeto de pesquisa objetiva investigar a violência linguística que marcou as manifestações de 2015 e de 2016, a partir de suas relações com a forma pela qual a questão da corrupção foi abordada nos principais meios de comunicação do país, durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff, e com a questão dos antagonismos de classe no Brasil. O suporte teórico- metodológico da pesquisa consiste numa articulação das discussões sobre a violência na linguagem de Butler (1997) e de Zizek (2014) com a teoria do discurso de Laclau (1985; 1990) e com a teoria social do discurso e seu modelo de Análise de Discurso Crítica de Fairclough (1999; 2003). O projeto em questão congrega, por conseguinte, pesquisas sobre as relações entre linguagem, violência e luta social em nossa história recente, sobretudo no que diz respeito às tensões entre o campo da mídia e o campo da política.

Palavras-chave: Linguagem. Violência. Antagonismo. Hegemonia. Luta social.

 

Projeto 4: Linguagem midiática, gênero (feminino) e processo de (des)colonialização.

Coordenador: Profa. Dra. Dina Maria Machado Andréa Martins Ferreira

Descrição: Utilizando-se da mídia impressa ou online – como recortes de jornais e revistas de circulação nacional, por exemplo -, busca-se um corpus analítico constituído por figuras femininas ou por figuras femininas junto a masculinas, nas linguagens verbal e icônica, a fim de avaliar como o gênero feminino é construído frente ao masculino. Os recortes do corpus serão da mídia brasileira, composta por uma linguagem localizada no Hemisfério Sul, território muitas vezes excluído das epistemologias hegemônicas, que, em vez de libertar a figura feminina das algemas de um pensamento eurocêntrico e/ou imperialista, reforçam a subalternidade de nosso território linguageiro e cultural. Trata-se, assim, de uma proposta que se forma por uma tríade: linguagem, gênero e território cultural. A qualificação principal do problema está na territorialização da linguagem performativa do gênero e na sua valorização enquanto parte de uma epistemologia do sul e/ou do norte – (des)colonialidade, (des)colonização, como apontam Santos e Meneses (2010). O gênero construído na linguagem, territorializado no Hemisfério Sul, pode ou não ser traduzido pela subalternidade; pode, também, ser estabilizado ou desestabilizado na e pela linguagem. Para argumentar sobre tal problemática, fazemos um percurso teórico crítico: partimos de Fairclough (2001 [1992]; 2003; 2005), cujas propostas serão aplicadas na análise do discurso midiático e de seus performativos simbólicos (BARTHES, 1969; ELIADE, 2012; HAESBAERT, 2004); passamos por Butler (1997; 2004; 2010) e por Spivak (1994), que abordam o gênero feminino, e chegamos a Grosfoguel (2010), a Maldonado Torres (2010), a Quijano (2010) e a Santos e Meneses (2010), que discutem a respeito das teorias (des)coloniais. A originalidade desse projeto está, de um lado, nos estudos de gênero – no caso, do feminino e do feminino junto ao masculino – pela estilização do corpo (PINTO, 2002), levando em conta a forma como a linguagem constrói o gênero; e, de outro, principalmente nos estudos – ainda não muito desenvolvidos – que localizam e contextualizam o gênero a partir de epistemologias territorializadas (ou territorializantes). Ou melhor, no fato de que o presente projeto recebe contribuições de pensadores do Hemisfério Sul e também do Hemisfério Norte (SANTOS; MENESES, 2010), que analisam o uso da linguagem sem levar em conta a influência da territorialização, da historialização/historialidade e da geograficidade das epistemologias (AGAMBEN; 2010, VATTIMO, 1985) como formadoras de determinado tipo de gênero. Esse percurso temático-teórico, sem dúvida, influencia a construção do gênero, quer seja local, quer seja globalmente. Dessa forma, mesmo considerando o poder global como o grande dirigente, é no poder local e em seu território que emergem as forças hegemônicas (eurocêntricas e imperialistas) que vão interferir no que convencionamos denominar “gramática cultural”, ou seja, nas normas e nos valores do cotidiano de determinada comunidade (FERREIRA; ALENCAR, 2013).

Palavras-chave: Gênero. Mídia. Representação social. Performatividade. Corpo.

 

Projeto 5: Polidez e violência: estratégias socioculturais-pragmáticas e os trabalhos com as faces nos enunciados linguísticos verbais e não verbais em interações sociais.

Coordenador: Profa. Dra. Letícia Adriana Pires Ferreira dos Santos

Descrição: Este projeto de pesquisa se fundamenta em uma abordagem sociocognitivo-pragmática e se concentra na investigação do fenômeno da (im)polidez, bem como da violência linguística, por meio do estudo de processos de interação social e da análise da conversação e das faces em diversos gêneros textuais que circulam na sociedade contemporânea, nos quais a (im)polidez e a (des)cortesia se materializam. Sendo a polidez um dos princípios da conduta humana, com vistas a evitar as tensões e os conflitos nas interações sociais, buscaremos, nesse projeto, evidenciar a importância do referido fenômeno em diferentes estudos linguístico- pragmáticos, mostrando como suas estratégias verbais de atenuação e de intensificação são centrais, quer na expressão da polidez ritual, quer na da polidez estratégica. Metodologicamente, as pesquisas associadas ao presente projeto serão de natureza descritiva e exploratória e partirão de um método hipotético-dedutivo, compreendendo um corpus de textos dos mais diversos gêneros da atualidade, que serão analisados quali-quantitativamente. Os pressupostos que embasarão tais análises se baseiam na Teoria da Polidez Linguística em consonância com os estudos críticos da linguagem, segundo os quais a linguagem é uma forma de ação (AUSTIN, 1990), sendo dotada, por consequência, de uma dimensão performativa (OTTONI, 1998) e estando ligada à ideologia e ao poder, consoante uma concepção crítica de ideologia (THOMPSON, 2011), numa perspectiva pragmática. Nesse sentido, sustentamos que tal perspectiva estabelece uma estreita correlação com a teoria interacionista de Goffman (2012) – que versa, inicialmente, sobre a preservação da face (self) dos sujeitos interactantes e, posteriormente, sobre os modelos teóricos de polidez positiva e de polidez negativa de Brown e Levinson (1987) -; e com as categorias de Leech (2005) acerca da (im)polidez linguística, vivenciada na e pela linguagem. Tendo em vista isso, nossas reflexões serão amparadas por um olhar crítico, à luz do pós-estruturalismo, o que possibilitará que a Linguística avance em direção a novas frentes de estudo, como é o caso da Nova Pragmática (RAJAGOPALAN, 2010), por exemplo. Delimitaremos, assim, nossos temas de pesquisa na análise de mecanismos linguísticos e paralinguísticos, na esteira da Nova Pragmática, que podem indicar os movimentos de (im)polidez linguística e das interfaces ideológicas entre o discurso polido/cortês ou o impolido/descortês/violento nos mais diversos gêneros contemporâneos.

Palavras-chave: Pragmática. (Im)Polidez. Violência. Faces. Gêneros Textuais.

 

Projeto 6: Abordagem discursiva das representações sociais: sistematização de um construto teórico-metodológico.

Coordenador: Prof. Dr. Lucineudo Machado Irineu

Descrição: Este projeto de pesquisa, alinhavado aos pressupostos epistemológicos da Linguística Aplicada, tem como objetivo geral sistematizar os princípios teórico-metodológicos do que compreendemos como abordagem discursiva das representações socais (IRINEU, 2019); isto é, o olhar especializado que lançamos para o estudo de tais representações a partir da interface teórico-metodológica estabelecida entre a Teoria das Representações Sociais, no campo da Psicologia Social (ABRIC, 1994; FLAMENT, 2001; DOISE, 2001; JODELET, 1991; MOSCOVICI, 1976), e a Análise de Discurso Crítica (FAIRCLOUGH, 2008; VAN DIJK, 2010), no campo da Linguística e da Linguística Aplicada. Nesse sentido, daremos especial atenção à análise dos processos discursivos envolvidos na reprodução desses “objetos do pensamento” (MOSCOVICI, 1976), por meio dos quais elaboramos nossa visão sobre o mundo e sobre seus elementos constitutivos. De modo específico, esse projeto objetiva congregar pesquisas que analisem representações sociais (re)produzidas nos discursos de/sobre grupos minoritários e/ou em situação de vulnerabilidade social – tais como a comunidade LGBT, os negros, os indígenas, os estrangeiros, os imigrantes, as pessoas com deficiência, os ciganos, os sujeitos em situações de rua, as mulheres vítimas de violência e as crianças institucionalizadas, dentre outros -, no contexto da América Latina, em perspectiva sincrônica ou diacrônica, conforme mostradas nos discursos midiático, autobiográfico, pedagógico e/ou acadêmico que circulam na modernidade tardia.

Palavras-chave: Representações sociais. Abordagem discursiva. Grupos minoritários. Vulnerabilidade social. Modernidade tardia.