Discente indígena torna-se o primeiro mestre em Filosofia da etnia Potyguara pela Uece

6 de março de 2026 - 10:59

 

O discente Daniel Camargo da Costa, pertencente à etnia Potyguara, da comunidade indígena de Crateús (CE), tornou-se o primeiro mestre em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (Uece). A defesa de dissertação ocorreu no último dia 26 de fevereiro, pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia (PPGFIL/Uece).

Graduado em Pedagogia pela própria Uece, Daniel Camargo é professor efetivo da Escola Indígena Raízes, localizada no município de Crateús. A conquista do título representa não apenas um marco pessoal, mas também um momento simbólico para sua comunidade e para a presença indígena na pós-graduação.

A dissertação defendida tem como título “O epistemicídio indígena: uma análise filosófica da catequese e da resistência dos povos indígenas”. O estudo investiga a catequese jesuítica no Brasil colonial como um dispositivo de dominação que ultrapassou o campo religioso e contribuiu diretamente para o apagamento dos saberes indígenas.

Segundo o novo mestre, “a conquista do título de Mestre em Filosofia é, para mim, muito mais que um sonho realizado. Ela representa uma vitória coletiva do povo indígena Potyguara da comunidade de Crateús, no Ceará. Como professor indígena da Escola Indígena Raízes de Crateús, sinto que este momento simboliza resistência e a força do nosso povo, que por muito tempo teve seus saberes silenciados. Estar na universidade e concluir esse mestrado é também ocupar um espaço que foi negado aos nossos antepassados. Minha pesquisa nasceu da realidade da nossa comunidade e tem como propósito valorizar nossa identidade, nossa cultura e nossos conhecimentos. Espero que essa conquista incentive outros jovens indígenas a acreditarem que também podem chegar à universidade e transformar seus sonhos em realidade”, destacou Daniel Camargo.

A dissertação foi orientada pelo professor Vicente Brazil, coordenador do PPGFIL, e teve coorientação do professor João Emiliano Fortaleza de Aquino.

Para o orientador, que acompanha o discente desde a graduação, a defesa representa também um exemplo do compromisso institucional da Uece com a inclusão e as políticas afirmativas na pós-graduação. “A defesa de dissertação do professor mestre Daniel Camargo demonstra a consolidação do compromisso da Universidade Estadual do Ceará com a implementação de políticas afirmativas na pós-graduação. Em nosso programa, a ocupação das vagas reservadas para pessoas com deficiência, pessoas negras, indígenas e quilombolas tem sido absolutamente eficiente. Ter sido orientador de bolsa de monitoria e de TCC do Daniel na graduação e, agora, como coordenador do PPGFIL e orientador na conclusão do mestrado, é uma maravilhosa confluência de temporalidades e eventos”, afirmou.

Ainda segundo o docente, o percurso acadêmico do novo mestre evidencia dedicação e alto desempenho acadêmico. “Com a defesa de dissertação, realizada rigorosamente no 24º mês de sua vinculação ao programa e com rendimento acadêmico altíssimo, ganha a Uece, ganha o PPGFIL, mas ganha sobretudo a sociedade, que recebe um profissional capacitado, engajado e comprometido”, completou.

Sobre a pesquisa do novo mestre

A pesquisa analisa como esse processo atuou na deslegitimação das cosmologias, línguas, espiritualidades e formas próprias de organização dos povos originários. Para isso, o trabalho utilizou metodologia bibliográfica e histórico-filosófica, com abordagem hermenêutica-dialética, a partir da análise de documentos do século XVI, como as cartas do padre Manoel da Nóbrega e o Diálogo sobre a Conversão do Gentio, que revelam estratégias e justificativas da missão jesuítica no período colonial.

O estudo dialoga com pensadores como Aníbal Quijano, ao tratar da colonialidade do saber; Boaventura de Sousa Santos, ao discutir o epistemicídio como dimensão estrutural da modernidade colonial; e Sueli Carneiro, ao evidenciar os impactos desse processo sobre a dignidade cognitiva dos povos subjugados. A dissertação também incorpora contribuições da filosofia indígena contemporânea de Ailton Krenak.

Entre os resultados, a pesquisa aponta que o epistemicídio indígena não foi apenas um efeito colateral da colonização, mas uma prática deliberada, sustentada por fundamentos filosóficos e teológicos, cujos efeitos permanecem até os dias atuais. O trabalho conclui que a valorização das epistemologias indígenas é fundamental para a descolonização do pensamento e para a construção de um horizonte pluriversal de saber.

Sobre o novo mestre

Daniel Camargo é professor efetivo da Escola Indígena Raízes de Crateús, onde acumula uma experiência de oito anos dedicados à educação, com atuação em diversas áreas, incluindo Educação Infantil, Ensino Fundamental I e II, EJA (Educação de Jovens e Adultos), Educação Cultural e Educação Digital. Graduado em Pedagogia pela Faec/Uece, agora possui Mestrado em Filosofia na linha de pesquisa Social e Política pela Uece, além de cinco pós-graduações, o que reflete seu compromisso contínuo com a formação acadêmica e a excelência na prática educativa.

Durante sua trajetória acadêmica, Daniel participou ativamente de projetos de pesquisa e de extensão, com destaque no projeto “O Supremo Bem da Retórica: Repercussões Políticas do Górgias Platônico”, em que explorou as implicações filosóficas e políticas da obra de Platão, contribuindo para o entendimento das interfaces entre retórica e ética na política. Além disso, apresentou trabalhos acadêmicos relevantes voltados para os temas de raça, racismo e educação, abordando questões cruciais para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

No âmbito da docência universitária, Daniel atuou como monitor voluntário nas disciplinas de Ética e Docência e Introdução à Filosofia na Uece. Segundo ele, essa experiência lhe proporcionou uma compreensão aprofundada da prática pedagógica e da importância da ética no ensino, além de fortalecer suas habilidades em orientar e apoiar estudantes no desenvolvimento acadêmico.

Sua experiência na Escola Indígena Raízes de Crateús é marcada pela implementação de práticas pedagógicas que valorizam a cultura e a identidade indígena, buscando sempre integrar a educação formal com os conhecimentos tradicionais. Daniel foi também preceptor no Projeto Residência Pedagógica, uma parceria entre a Escola Indígena Raízes de Crateús e a Uece, onde desempenhou um papel fundamental na formação de novos educadores, orientando-os para uma prática docente comprometida com a diversidade cultural e a inclusão.

Além disso, concluiu com êxito o programa de pesquisadores em início de carreira da Fundação Lemann. Sua participação no Programa Lei da Escola Raízes Indígenas de Crateús também é notável, onde contribuiu para a promoção da educação cultural e digital, fortalecendo o vínculo entre a escola e a comunidade. Daniel também participou na COP 30, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticaso, onde foi representante no pavilhão da Zona Azul, espaço oficial onde acontecera as negociações entre países, a Cúpula de Líderes e as atividades diplomáticas organizadas pela ONU.