Entre ensino, pesquisa e compromisso social: a trajetória da professora Déa Vidal na Uece

12 de fevereiro de 2026 - 15:19

 

A trajetória profissional de um docente vai além das datas de admissão e aposentadoria. Ela é construída ao longo de experiências, escolhas e contribuições que se consolidam com o tempo. Assim se desenvolveu o percurso da professora Déa de Lima Vidal, que dedicou mais de duas décadas à Universidade Estadual do Ceará (Uece), com atuação marcada pelo ensino, pela pesquisa e pela participação na vida acadêmica da instituição.

Déa chegou à Uece oficialmente em 2003, como professora efetiva, após ser aprovada em 1º lugar no concurso público. Mas sua história com a instituição começou antes: desde 2001, já atuava como professora substituta no então Departamento de Produção Animal e Extensão Rural, da Medicina Veterinária. “Eu já tinha um ano e meio de casa como CLT”, recorda. Ministrava disciplinas como Extensão Rural e Sociologia Rural, sempre articulando ensino, pesquisa e compromisso social.

Pesquisadora por vocação, Déa consolidou sua atuação acadêmica após a efetivação. Com formação em Zootecnia, doutorado e pós-doutorado no exterior, trouxe para a Uece uma bagagem internacional construída entre Espanha, Escócia, Grécia e Japão. Chegou a receber convite para permanecer no Japão por quatro anos, mas fez outra escolha. “Eu já tinha vivido a condição de estrangeira. Queria voltar para o meu país”, afirma.

O Nordeste, aliás, não foi um destino ao acaso. Desde a juventude, Déa nutria o desejo de compreender as raízes das desigualdades brasileiras. Ainda estudante, decidiu que estudaria o semiárido e a produção animal em áreas desfavorecidas. “Eu nunca tive interesse em trabalhar para a elite”, diz com firmeza. Sua opção sempre foi pela agricultura familiar, pelo campesinato.

Essa escolha a levou, ainda jovem, aos “velhos Cariris”, na divisa entre Paraíba, Ceará e Pernambuco, onde desenvolveu seu trabalho de conclusão de curso em meio à seca severa. Lá, vivenciou experiências que moldaram definitivamente sua visão de mundo, inclusive a de passar fome ao lado dos trabalhadores locais. “Foi bom para entender o que é a fome”, relembra, sem romantizar.

Filha de São Paulo, com raízes em Minas Gerais e cidadania italiana, Déa escolheu o Ceará como território de pertencimento. Sem filhos por opção, construiu uma vida dedicada ao estudo, à autonomia intelectual e à coerência entre pensamento e prática. “Mulheres da minha geração, com ideal intelectual, tinham que fazer escolhas”, reflete.

Entre muitas pesquisas na Uece financiadas por agências de fomentos, ela relembra uma de maior impacto. “Foi uma sobre sustentação de famílias rurais, de agricultura camponesa, no município de Tauá. Foi um projeto gigantesco, que durou oito anos.

Na Uece, outro grande feito da professora Déa foi a fundação do Laboratório de Estudos em Sistemas Agrários Semiáridos (Lesisa), ao qual se dedicou intensamente. “No Lesisa eu dei o meu sangue”, resume. O laboratório tornou-se espaço de produção científica, formação de estudantes e reflexão crítica sobre os sistemas agrários do semiárido, sempre com olhar atento às realidades sociais e ambientais da região.

Ao longo dos anos, professora Déa não se restringiu à sala de aula. Além do ensino e da pesquisa, exerceu diversas funções acadêmicas e construiu uma presença marcante na vida universitária. Era comum encontrá-la nos fins de semana, cuidando dos animais abandonados no campus, um gesto coerente com sua trajetória, marcada também pela defesa do bem-estar animal.

Ao avaliar sua experiência na Uece, o sentimento é de realização. “Foi uma das épocas mais brilhantes da minha vida, mais satisfatórias. Fiz tudo que previ. Criei o Laboratório, desenvolvi inúmeras pesquisas financiadas pelo Ceará, pelo País, pela Alemanha, recebi pesquisadores de um grande projeto da África, e muito mais”. Eu tive uma vida muito rica, muito plena como professora em sala de aula. Sempre alimentava a sala de aula com a pesquisa. E, paralelamente, a questão dos animais no campus, que acredito ter criado um certo sentido educativo da responsabilidade médica veterinária com animais pobres. Eu, inclusive, fiz o estatuto do Gaba” [Grupo de Apoio ao Bem-Estar Animal], avalia e relembra a professora Déa, que concluiu emocionada: “Indiscutivelmente, a Uece foi a concretização do meu sonho de vida”.

Sobre o futuro, ela fala com a mesma inquietação que marcou a juventude: há sempre novos caminhos a explorar, leituras a fazer, lugares a revisitar. A aposentadoria, no seu caso, não significa interrupção, mas transição.

Como mensagem final, ela defendeu: “É importante resistir diante das adversidades, florescer as políticas científicas para a classe trabalhadora. A universidade é do povo, ela precisa fazer pesquisa para o povo”.

Com sua aposentadoria em 2025, a Uece se despediu formalmente da professora Déa de Lima Vidal, mas celebra e homenageia aqui sua trajetória que permanece viva nas pesquisas publicadas, nos estudantes formados, no Lesisa consolidado e na certeza de que a universidade pública se constrói com pessoas que, como ela, decidiram dedicar a vida a algo maior que si mesmas.