Marisa Aderaldo, a professora que ajudou a construir uma Uece mais inclusiva
14 de maio de 2026 - 11:45

Há trajetórias docentes que não cabem apenas na rotina básica de uma sala de aula. Elas se revelam, sobretudo, nas marcas deixadas nas pessoas e nos caminhos que ajudam a abrir. É assim que pode ser contada a história da professora Marisa Ferreira Aderaldo com a Universidade Estadual do Ceará (Uece), uma relação construída ao longo de 25 anos e que segue viva, mesmo após sua aposentadoria.
Natural de São Paulo e formada pela Universidade de São Paulo (USP), Marisa chegou ao Ceará em 1996 sem imaginar que, dois anos depois, a docência universitária se tornaria seu destino. “Ser professora de universidade nunca esteve nos meus planos”, relembra. A reinvenção veio com o tempo e com a coragem. Após uma carreira de duas décadas no Banco do Brasil, decidiu recomeçar. Primeiro como professora de português, depois, ao surgir a oportunidade, ingressou na área que sempre a encantou: a língua espanhola.
Sua história na Uece começou como docente substituta e, em 2003, consolidou-se com a aprovação em concurso público para o curso de Letras, no Centro de Humanidades (CH). Desde então, a sala de aula se tornou seu lugar de pertencimento. “Meu coração ainda pertence à sala de aula”, afirma. E é nele que guarda algumas de suas maiores alegrias: o reencontro com ex-alunos que hoje são professores, pesquisadores, doutores. Certa vez, num evento de música clássica, ela reencontrou uma ex-aluna que se lembrava, duas décadas depois, de um texto trazido para sala de aula sobre o discurso de García Márquez ao receber o Nobel. “Isso não tem preço. Faria tudo de novo. Com erros e com acertos”.
Mas a trajetória de Marisa vai muito além da docência. Ao longo dos anos, ela transitou por diferentes espaços da universidade, assumindo funções de gestão e contribuindo para a formação acadêmica e humana da instituição. Foi coordenadora do Núcleo de Línguas, atuou no Laboratório de Tradução Audiovisual (LATAV), integrou a pós-graduação e participou da gestão sindical docente, experiências que, segundo ela, ampliaram sua visão sobre a universidade. “Isso dá uma vivência muito completa”, ressalta.
Foi, no entanto, no Núcleo de Apoio à Acessibilidade e Inclusão das Pessoas com Deficiência, Transtornos Globais do Desenvolvimento, Altas Habilidades/Superdotação e Mobilidade Reduzida (Naai/Uece) que sua atuação ganhou um significado ainda mais profundo. Convidada a ser assessora no início de uma gestão, em 2021, professora Marisa participou diretamente da construção do Núcleo. “A gente construiu, de fato, a base da inclusão e da acessibilidade na Uece. Nós conseguimos transformar a inclusão numa questão sistêmica”, afirma, com a consciência de quem ajudou a estruturar políticas e práticas que hoje impactam toda a universidade.
Hoje, depois de cinco anos, entre outras mudanças, servidores da biblioteca sabem receber estudantes com deficiência, o Restaurante Universitário adaptou marmitas para alunos com seletividade alimentar e o sistema acadêmico ganhou uma coluna específica para informações de acessibilidade. “Todo mundo tem que entender que tem um pouco da responsabilidade”, enfatiza ela.
Sem experiência prévia na área, mas com sensibilidade e compromisso, ela mergulhou no desafio. “Quem trabalha com inclusão se torna um cidadão, uma pessoa melhor. É um exercício constante de empatia.” O trabalho, muitas vezes intenso nunca foi motivo de queixa. Ao contrário: era movido pela certeza de que fazia diferença na vida das pessoas.
E fez!
Entre os momentos mais marcantes de sua trajetória na Uece, professora Marisa destaca as colações de grau de estudantes com deficiência. “É a atividade-fim da universidade se realizando. É emocionante ver essas histórias sendo concluídas e ver a alegria das famílias.”
Ela lembra também de Anderson, aluno surdo do curso de Educação Física, dançando quadrilha sem errar um passo, com o suporte dos intérpretes do Naai. Lembra de Elanine, que perdeu a visão aos 15 anos e hoje faz estágio supervisionado numa escola, acompanhada por um auxiliar que descreve os movimentos das crianças em tempo real. Lembra de um estudante que tentou o TCC quatro vezes antes de finalmente ser orientado com as adaptações certas e que depois enviou uma carta de agradecimento ao núcleo; entre muitas outras histórias. “Como não ficar emocionada? Você recebe uma cartinha de agradecimento e percebe que valeu cada domingo trabalhado!. Como não ficar emocionada?”, indaga a aposentada.
Para ela, cada conquista carrega o esforço coletivo de uma rede que envolve professores, técnicos, gestores e famílias, e reafirma o papel social da universidade pública.
Ao olhar para a Uece, Marisa fala com gratidão. “Eu tenho uma gratidão ‘tão’ grande porque ser professora universitária nunca esteve nos meus planos. Foi sem planejamento e foi a melhor coisa que me aconteceu!”. Ela complementa: “a Uece foi um espaço de acolhida. Eu fui acolhida, e depois acolhi.” Essa troca, segundo ela, é o que sustenta a vida universitária: “a gente tem que estar sempre disposto a abraçar as pessoas. É muito bom ser abraçado, mas também é muito bom abraçar.”
Hoje, vivendo um novo tempo, ela se permite desacelerar. Dedica mais atenção à família, planeja viajar, cuidar da saúde e, eventualmente, continuar contribuindo com aquilo que ama, como a audiodescrição, área em que foi pioneira em sua pesquisa acadêmica. “Se eu voltar a trabalhar, vai ser de forma mais tranquila, no meu tempo, do meu jeito.”
Mas há algo que não muda: o vínculo permanente com a universidade. “Eu saio da Uece, mas a Uece não sai de mim.” As resoluções que ajudou a escrever continuam vigentes. O Naai continua de pé, com uma equipe que ela mesma descreve como altamente qualificada. E por cada campus, há estudantes com deficiência que chegaram, permaneceram e se formam, em parte porque alguém, lá em 2021, resolveu recomeçar do zero.
À professora Marisa Aderaldo, a Universidade Estadual do Ceará agradece o compromisso com a inclusão na instituição e o grande legado deixado!