Uece inicia tratamento inédito e leva esperança a crianças com síndrome de Rett

30 de abril de 2026 - 14:49

 

A Universidade Estadual do Ceará (Uece) deu um passo histórico na ciência e na assistência à saúde ao iniciar, na última terça-feira (29), a aplicação de um tratamento inédito em crianças com síndrome de Rett. O momento, realizado no Instituto Superior de Ciências Biomédicas (ISCB), marcou não apenas o avanço de uma pesquisa pioneira, mas também o encontro entre ciência, cuidado e esperança para famílias que convivem com a doença.

O vice-reitor da Uece, professor Dárcio Teixeira, destacou o impacto potencial da iniciativa. “O tratamento pode modificar a qualidade de vida de uma criança e, por que não dizer, da família inteira”, afirmou. Ele ressaltou ainda a responsabilidade envolvida no estudo: “É um experimento de muita responsabilidade, acompanhado por um comitê de ética, para que tenhamos resultados com segurança. Estamos tratando com vidas, e vidas importam”.

Coordenadora da pesquisa, a professora e médica Denise Carvalho emocionou o público ao enfatizar o significado daquele momento. “Esse encontro marca ciência, assistência, humanização e evolução, e, acima de tudo, esperança. Quando essa esperança se fundamenta em algo concreto e robusto, ela se torna real”, declarou. Com mais de 30 anos dedicados às doenças raras e aos transtornos do neurodesenvolvimento, professora Denise destacou a importância de transformar conhecimento científico em benefício direto para os pacientes: “A gente não pode ficar apenas no laboratório. Precisamos trazer para a vida real”.

A síndrome de Rett é causada por mutações no gene MECP2, que ativam mecanismos epigenéticos prejudiciais ao desenvolvimento neurológico. A proposta do tratamento é com o antiviral “lamivudina”, já disponível gratuitamente pelo SUS. Ele age como um inibidor, bloqueando mecanismos ativados pelo gene defeituoso.

Segundo a pesquisadora, o efeito esperado é uma desaceleração do quadro clínico, com redução de convulsões, melhora das estereotipias e avanços no desenvolvimento, e, em casos com início precoce do tratamento, possivelmente a inibição da progressão da doença. “É como se fosse uma interrupção da gravidade da doença”, explicou.

Os avanços que possibilitaram o início do tratamento têm origem em pesquisas realizadas em parceria com a Universidade de San Diego (USD) e com a NASA. Células de pacientes com síndrome de Rett foram enviadas à Estação Espacial Internacional, onde o ambiente de microgravidade acelerou significativamente o envelhecimento celular. O que levaria anos para ser observado em laboratório foi revelado em semanas, e a descoberta foi transformadora: após o retorno à Terra, o uso da lamivudina promoveu uma recuperação significativa nessas células. “O que levaria anos para observar aqui, conseguimos em semanas no espaço. Tempo é vida, tempo é neurônio”, destacou Denise, ao enfatizar a relevância da colaboração com a NASA.

Para as 10 famílias previamente selecionadas, o início do tratamento representa mais do que um avanço científico, é a materialização da esperança. Fabiana Moreira, mãe de Ana Beatriz, resumiu o sentimento: “Esse tratamento representa esperança. Esperança de ver ela andando, falando, olhando pra gente”.

Carol Crisóstomo, mãe de Isabora, também compartilhou sua expectativa: “A gente espera alcançar algo muito maior, que nossas crianças possam ter mais qualidade de vida”.

Já Francisco Costa, pai de Isadora, destacou a dimensão do momento: “É muita emoção. É um marco para a ciência e para a medicina. A palavra é gratidão”.

O estudo, que já apresentou resultados promissores em fases laboratoriais e pré-clínicas, entra agora nessa etapa de ensaio clínico com acompanhamento rigoroso das 10 participantes. A expectativa da equipe é que o tratamento possa alterar a história natural da doença, promovendo avanços no desenvolvimento e melhorando significativamente a qualidade de vida das crianças.

Os resultados, caso positivos, poderão abrir caminho para a expansão do tratamento por todo o Brasil e internacionalmente. Além do impacto na síndrome de Rett, a pesquisadora projeta desdobramentos mais amplos. “Acreditamos que esse pode ser o primeiro modelo de uma abordagem que beneficie também outros transtornos”, finalizou a pesquisadora.