Selene Maia: trajetória que une ciência com plantas, formação de alunos e reconhecimento global
1 de abril de 2026 - 16:32

Quando o nome da professora Selene Maia de Morais passou a figurar entre os pesquisadores mais influentes do mundo, o reconhecimento apenas confirmou o que já era evidente na Universidade Estadual do Ceará: uma trajetória construída com rigor científico, dedicação contínua e profundo compromisso com a formação de pessoas.
Mesmo após a aposentadoria, em setembro de 2025, sua presença permanece viva no cotidiano da instituição, seja nos espaços que ajudou a erguer, nas orientações de pesquisas que continuam ou nas histórias de alunos que seguem seus caminhos.
Mas essa é uma história daquelas com muito a contar, que começou lá em 2001. A chegada da professora Selene à Uece aconteceu depois de uma carreira já consolidada na Universidade Federal do Ceará. “Eu me aposentei da UFC e fui convidada para dar aula de Bioquímica no Curso de Medicina Veterinária da Uece”, relembra. O que começou como um convite pontual rapidamente se transformou em um novo capítulo profissional, ao surgir um concurso para professores de Química, sua área de formação.
Ao ingressar como docente adjunta na instituição, encontrou uma realidade desafiadora e logo tratou de buscar soluções. “Eu lutei bastante e me metia em tudo quanto era edital para conseguir verba e trazer mudança para a universidade”, conta. Com apoio de instituições como a Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), professora Selene participou ativamente da estruturação de laboratórios e da consolidação da pesquisa na área de Química.
“E assim eu consegui bancada, capela, um extrator de óleos essenciais, que era com o que eu trabalhava no momento, e é com o que eu comecei a trabalhar no Programa de Pós-graduação em Ciências Fisiológicas. Lá, eles pesquisavam muito os óleos essenciais. Então eu montei meu extrator, fazia as extrações das plantas que a equipe buscava em Viçosa”, relembra. Está também, entre suas primeiras conquistas na Uece, em parceria com outros pesquisadores da casa, a vitória de um edital da Finep. O projeto vencedor era de uso de produtos naturais do semiárido para a produção de biofármacos. “Nessa estrutura de biofármacos, nós conseguimos vários aparelhos, aparelhos grandes, inclusive, para montar o nosso laboratório”, conta a docente se referindo ao Laboratório de Análises Cromatográficas e Espectroscópicas (Laces), que hoje permanece em funcionamento, contribuindo na formação de novos pesquisadores. Essas foram apenas algumas das conquistas iniciais da professora Selene Maia na Uece.
Docente do curso de graduação em Química, mas também de cursos de pós-graduação, a inquieta pesquisadora também ingressou no quadro da pós-graduação da Favet. “Eu, trabalhando na área de produtos naturais, me agreguei na parte de sanidade animal, utilizando os produtos naturais nas doenças dos animais, como em leishmaniose ou fungos”, conta ela. Com o avanço das pesquisas nessa área, a docente também contribuiu para a construção do Núcleo de Pesquisa em Sanidade Animal da Uece.
O reconhecimento por sua trajetória extrapolou os limites da universidade. A professora Selene figura em rankings internacionais que reúnem os cientistas mais influentes do mundo, considerando o impacto de sua produção científica. Ainda assim, ao olhar para sua própria história, ela relativiza os títulos e destaca outro legado.
“Mais do que ter patentes, ter trabalhos publicados, o mais importante para mim é a formação de recursos humanos. Ver os alunos mudarem a realidade deles isso, para mim, é o principal”, afirmou muito emocionada.
Sua postura e seu compromisso com a ciência a levou, sempre com seus alunos, a desenvolver pesquisas com plantas medicinais em diálogo com saberes tradicionais, como os de povos indígenas do Ceará. “Eu disse: vamos fazer um estudo etnobotânico com os povos originários, de Caucaia, os Tapebas. Lá, então, a gente teve contato com as plantas, com o pajé, com as histórias que eles contavam e com as plantas que eles utilizavam. E, assim, começamos o trabalho nessa parte de plantas medicinais dos indígenas”, compartilha a professora Selene.
Em uma dessas descobertas, inspirada pelo conhecimento popular, ela relata: “A pajé dizia que uma determinada planta era para o esquecimento, e nós fomos investigar. E vimos que realmente tinha substâncias com atividade no cérebro”. Para a professora, esse encontro entre ciência e saber tradicional é essencial: “A percepção do uso dos produtos da biodiversidade (…) é muito importante para ser um cientista”.
A partir dessas experiências, surgiram estudos com impacto direto, incluindo pesquisas relacionadas ao combate ao Aedes aegypti e investigações mais recentes voltadas ao Alzheimer. “Nos últimos 10 anos, as nossas pesquisas foram relacionadas à luta contra o Alzheimer, pois a gente vê que é uma doença que aflige o mundo inteiro. Então, mais uma vez, fomos atrás dos produtos naturais”.
Sua produção científica é extensa, com centenas de artigos publicados e diversas patentes. Mas seu trabalho sempre esteve orientado por um propósito claro: a aplicação do conhecimento. Desde os primeiros estudos na Uece, ela buscou caminhos possíveis. “Eu sempre fui muito prática. Eu queria ter uma aplicação”, diz.
Ao longo da carreira, também assumiu funções de gestão, na coordenação tanto da graduação quanto de pós-graduação. Ainda assim, é na relação com os alunos que encontra maior sentido em sua trajetória. “As pessoas aprenderem alguma coisa através de mim é a minha realização profissional”, resume.
Esse compromisso aparece na forma como acompanha seus orientandos e na maneira como enxerga o papel da universidade pública. “Aqui na Uece, a gente é capaz de realizar os sonhos”, afirma emocionada. Para ela, o ambiente acadêmico é, sobretudo, um espaço de transformação social. “Eu consegui!”, declara com lágrimas nos olhos ao agradecer a todos que a ajudaram nessa trajetória na Uece, inclusive seu esposo, o ex-reitor e professor Jáder Onofre de Morais.
A aposentadoria, nesse contexto, não representa um afastamento definitivo. A professora segue acompanhando alunos e participando de pesquisas. “Eu ainda vou continuando. Esse entusiasmo que eu tenho, essa vontade de ajudar as pessoas a aprenderem, isso é fundamental para mim”, diz.
Fora da universidade, celebra uma vida marcada por vínculos e histórias: mais de 50 anos de casamento, quatro filhos, nove netos e muitas viagens. E é na ciência e na formação de pessoas que encontra sua maior realização enquanto professora e pesquisadora. “Como legado, deixo muitos alunos formados, que muitos deles são hoje professores e pesquisadores; além de deixar laboratórios que antes não existiam”, ressalta satisfeita a aposentada que permanece ativa na universidade.
Ao se dirigir às novas gerações, deixa um conselho que traduz sua própria trajetória: “Tudo que você faz na vida, você deve fazer com gosto, com cuidado e com determinação”. E complementa com uma imagem que sintetiza sua visão sobre a ciência: “Escrever um artigo científico é como contar uma história. Você precisa contar bem aquela história”.
A história da professora Selene Maia de Morais segue sendo contada nos laboratórios que ajudou a construir, nas pesquisas que continuam e, principalmente, nas vidas que ajudou a transformar. A essa grande docente e pesquisadora, a Universidade Estadual do Ceará agradece por toda a sua dedicação!


