Os muitos gargalos do serviço 190

24 de outubro de 2013 - 11:49

Segundo fontes, há sábados em que a Ciops deixa de atender pelo menos mil chamadas de pedido de socorro. Há um problema herdado pelo atual secretário da Segurança que precisará ser equacionado

Após o assassinato de Andréa Aderaldo Jucá, 39, pelo menos quatro viaturas da PM e uma da Polícia Civil chegaram ao local do crime. Um dos gargalos herdados pelo atual secretário da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará, delegado federal Servilho Paiva, é tentar equacionar o fluxo de solicitações de socorro com o envio de carros da polícia para os locais das ocorrências nos bairros de Fortaleza e Região Metropolitana.

Segundo O POVO apurou, a Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança do Ceará (Ciops) atende, em média, 2.300 chamadas por dia durante a semana. Subindo para 3 mil registros entre o sábado e o domingo.

A atual estrutura da Ciops, por causa da crescente onda de violência em Fortaleza e Região Metropolitana, estaria comprometida. Para se ter um ideia, de acordo com uma fonte ouvida pelo jornal, em um dos sábados deste mês, pelo menos 1.000 ocorrências deixaram de ser atendidas num espaço de 12 horas de plantão.

A exemplo do caso que terminou com o assassinato de Andréa Jucá, centenas de pessoas podem ter sido vítimas de algum crime sem que a polícia nunca tenha aparecido no local, mesmo que tenha sido solicitado o pedido de socorro.

 

Terceirizados

Outro problema a ser enfrentado na SSPDS recai sobre o quadro de funcionários que faz o primeiro atendimento e encaminha as viaturas das polícias para os locais onde os crimes estão ocorrendo ou casos de ameaça.

Por turno, (são quatro divididos a cada seis horas), há 25 atendentes. E boa parte é de serviço terceirizado. Há algumas semanas, houve o risco de paralisação da oferta do serviço por causa do atraso no pagamento de benefícios de quem não é militar e trabalha nos telefones que se interligam ao sistema da Ciops.

Segundo outra fonte ouvida pelo O POVO, apenas na última semana o “dinheiro caiu na conta dos civis que trabalham ali”. Por conta desse problema, houve quem faltasse ao trabalho de atendimento ao cidadão que recorre ao 190 para pedir uma intervenção policial.

 

Atendimento/Ronda

No último dia 14/10, o repórter Thiago Paiva mostrou que há deficiência também no atendimento às ocorrências quando a população recorre aos telefones do Ronda do Quarteirão. Em três dias O POVO ligou para 138 viaturas e não houve atendimento em 66% dos casos. (Demitri Túlio)

Números

10 Telefonemas foram disparados por vizinhos de Andréa Juca para a Ciops.

5 Vezes. A primeira vizinha fez cinco pedidos de socorro e suplicou por uma viatura.

Atraso e falhas

1. No primeiro pedido de socorro para a pedagoga Andréa Jucá, às 14h14min35s,o operador da Ciops tenta deslocar a viatura da área (Rodolfo Teófilo) para o local da ocorrência. Mas não consegue. Os policiais avisam que estão na hora da “rendição” (mudança de turno). A troca de plantão dura mais de 20 minutos. O operador tenta ainda acionar o Policiamento Ostensivo Geral (P.O.G.) do bairro, mas não consegue e registra “indisponível no momento”.

2. Faltou iniciativa de quem estava na Ciops. A sede da Guarda Municipal fica a poucos metros da casa onde Alan Terceiro espancava Andréa Jucá. Uma ligação telefônica do oficial que coordenava a Ciops poderia ter provocado a ida de guardas municipais ao local da “briga de casal” – mesmo no domingo. Faltou integração entre organismos de segurança.

3. A ocorrência “Briga de casal”, como foi registrado pela Ciops, não está entre as prioridades do atendimento da central de comunicação da Secretaria da Segurança. No caso em questão, a desavença entre marido e mulher deu num “homicídio”.

4. Segundo registro da própria Ciops, pelo menos dez ligações de pedido de socorro foram feitas antes de Andréa ser esfaqueada por Alan. Somente uma vizinha ligou cinco vezes por causa dos gritos de socorro da vítima. O grande número de telefonemas não foi suficiente para fazer a Ciops conseguir o envio de uma viatura para lá.

5. O dia da ocorrência era um domingo (13/10/13) e o tráfego de veículos em Fortaleza não é intenso. Não justificaria dizer que as viaturas estariam presas no trânsito.

6. Segundo o cabo Valério, que arrombou (com outros populares) a casa de Andréa, a residência da vítima fica entre três territórios de policiamento motorizado (viaturas): nos bairros do Rodolfo Teófilo, Parque Araxá e Jardim América. Além da residência estar esquadrinhada, também, entre áreas do Policiamento Ostensivo Geral (P.O.G.).

7. Houve demora também na chegada de uma ambulância do Samu. Ela foi solicitada às 14h48min24s. Só 15 minutos depois há um registro na Ciops de que ela está a caminho. Apenas às 15h33min03s, provável horário de chegada da viatura, há a constatação que Andréa está morta por ter recebido pelo menos 20 perfurações a faca.

8. Segundo um a fonte, a Ciops tem problema com atendentes e operadores civis. Eles, que são terceirizados, não conseguem ter autoridade sobre os que comandam as viaturas nas ruas. Muitas vezes, suas orientações para ações de urgência são desprezadas. Na Coordenadoria de Operações, das 12 cabines de comunicação, 6 ou 7 seriam operadas por funcionários terceirizados.

9. Nem todos os atendentes, operadores e militares que trabalham na Ciops têm noção da geografia de Fortaleza e Região Metropolitana, afirma a fonte. O que dificultaria a rapidez em decidir por alternativas na hora de situações de crise.

 

Fonte: Jornal O Povo